sábado, 26 de fevereiro de 2011

DOS MEUS OSSOS




(Memoriais de Sofia/Zocha)

Hoje lembrei da venda do Rufino
dos queijos dependurados
dos salames enrolados
do cheiro de fumo e toicinho
das latas de banha e da gordura vegetal
Lembrei daquela mãe estrela guia
que irrompendo sobre as ventanias
fazia o próprio sabão
fazia e confeitava os bolos com as gemas
da verdade
não batia com ovos de traição
Lembrei da vara de pessegueiro
das floradas das pereiras da casa da rua Goiás
da áspide Soniazs com seus olhos doentes de paixão por inveja na rua barrenta pelo mesmo polaco
lembrei-me do jogo oculto do polaco traiçoeiro
Lembrei-me das tranças sem faianças
Mas havia uma cristaleira com compotas na sala humilde
guarnecida de móveis de pinho
lembrei-me dessas letras sem canção
lembrei-me dos meus ossos com certeza...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Este Presépio


pintura/Langue de Morretes
(1953)


Do meu amor eu não o canto a Babel
nem o vejo no delírio do povo
este tabernáculo é quintal
e guarda o meu pé de sabugueiro as floradas
da minha criança
bebo da losna amassada
escrevo com cunha de pinhão e derramo
do cálice esta pinha desfolhada
pinta a manjedoura do céu a pomba a estrela guia da araucária
Este presépio é pastor das minhas ovelhas




Feliz Natal!
Próspero e Abençoado Ano Novo de 2011!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Uma mesa


pintura/Wladislau Slewinski



Memoriais de Sofia/Zocha



Era uma mesa de madeira com gaveta para talheres e fazia parte de um jogo de cozinha com quatro cadeiras, caixão para lenha e um guarda-comida azul. Seu tampo era de cerne de madeira virgem, cheirando à araucária viva. Era uma mesa que pensava, que nos olhava e que
ajoelhava-se para que nós fizéssemos a ceia em seu colo.Quando a mãe a lixava com pedra ficava com a pele mais alva ainda e sensível e talvez até chorasse sem que víssemos.Era o anteparo para o nosso encontro com as substancias de nós mesmos e os objetos que ali nos esperavam como nossa extensão.
No quadrado da cozinha, a roda daquela mesa girante nos girava e recolhia-nos como numa cerimônia em derredor de uma linha mítica e ancestral.
E nesta espiral uma geometria sem conceitos quando o trigo se esparramava sobre as taboas e
a mãe amassava a farinha com a vida, a morte e suas raízes.
O que pode se depositar sobre uma mesa? Para que serve uma mesa?
Uma mesa é um anteparo de ceia e de deserção
e pode ser um lugar e um tempo onde acontecem o encontro, a partilha e também a separação das substancias. As substâncias invisíveis que habitam as palavras das coisas e o espírito da fome.


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