quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Lírica de Uma Ceia

pintura/Lilianreinhardt







A vida surpreende a cada instante único. Apreender a cada passo sugere estar disponível para viver. Disponível como se dispõe os frutos na seara para a colheita, disponível para indagar dos mistérios dos grãos no silencio da terra quente sob os pés, sentir essa quietude inquieta na alma, mesmo quando a arrebentação da insolitude quebra as cordas sonoras dos sonhos, mesmo quando o mundo prega a desilusão, o fastio do eu te amo por mis-en-scène, sentir a beleza mesmo quando as formas se dissolvem e tudo fica vazio, neblinando para renascer, eis que rodopia ainda a dança da libélula, a coreografia das abelhas sugando o pólen, a lágrima salgando a vida caindo do oceano da alma...acreditar na ação, que se faz verbo da verdade da alma , eis a busca além das palavras perdidas, que revoam pelas cidades flageladas de hoje que não mais conhecem de partilhas ou ceias... não há mais tempo para sentir o próprio mistério!

Norma Segades Manias

Pido perdón a Lilian por mi "versión libre" de su texto.
La vida nos sorprende con sus instantes únicos. Aferrarse a cada paso sugiere estar dispuesta a vivir. Disponible como los frutos cosecha tras cosecha, disponible para indagar los misterios de los granos en el silencio de la tierra, sentir este silencio incómodo en el alma, aun cuando el oleaje de la soledad quebrante las cadenas sonoras de los sueños, incluso cuando el mundo predica la desilusión, el fastidio donde el amor sucede por error de la puesta en escena. Apreciar la belleza aun cuando las formas se disuelven y todo está vacío en la neblina del renacimiento. He aquí que en remolinos continúa bailando la libélula, en la coreografía de la abeja succionando su polen. Y el llanto va surgiendo hacia la vida cayendo en el océano del alma… Y descree de acciones hechas verbo, de búsquedas constantes más allá de palabras extraviadas sobrevolando urbes plagadas de presente, donde no se conoce más que comida rápida… y ya no queda tiempo para hallar el misterio!

(da Revista Gaceta Literária Virtual)

Muito obrigada! Honrada Norma com sua versão do texto para o espanhol.



http://lilianreinhardt.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=3357067

http://muraldosescritores.ning.com/profiles/blogs/l-rica-de-uma-ceia

Lilian Reinhardt






quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Casa das Gabirobas


pintura/Lilian Reinhardt


(Memoriais de Sofia Zocha)



Quem diria que aquela casa de fantasmas cheirava a carambolas, maracujás, ninhos de gabirobas , de beija-flores nos tufos escuros das paredes desnudas? Talvez fosse melhor dobrar a esquina e seguir pela outra rua. Que loucura era aquela que enredava para cheirar aquela casa de fantasmas? Os pés afundavam no areião, lavavam -se os dedos, um lava pés quente e morno, lambendo as asas dos lábios úmidos, limeiras pelos caminhos traziam os revoos dos sabiás, arrulhos de trigais sem corvos, Araruna era apenas uma aldeia perdida num mapa geológico onde os marimbondos faziam suas cachopas nas pálpebras das janelas em qualquer hora do dia. E que importava se o sol escaldante curtia as tuias, os terreiros, e as bateias com aqueles grãos avermelhados, adocicados dos cafezais perdidos das terras roxas do norte do Paraná, Zocha desamarrava o lenço sob o chapéu de palha, caminhavam para ver uma casa alaranjada de janelas vermelhas. Ali poderia acontecer o ninho esperado, fora prometido. No trajeto a zoeira do cheiro dos fantasmas e a casa fantasmagórica caminhante, se deslocava e vinha ao encontro deles, sem pintura, bordada de maracujás assustando com seu cheiro estranho. Como fugir daquela linha magnética? A cidade quebrava-se, esticava-se, Norte e sul se confundiam, a rua larga do hotel do Comércio se estreitava. Ali não havia ninguém, só o zumbido dos marimbondos, das abelhas, e uma melodia estranha que cheirava perfume de flores silvestres e fétido estrume . E as sombras projetavam-se oblíquas e pareciam formatar imagens nunca vistas, rumores nunca ouvidos. O ônibus ladeava em curva a montanha e lá distanciava-se a casa do olhar enviesado, cúpido e míope, afogada no seu próprio delírio...na rodoviária como no café da manhã sempre amanhecia sem nunca amanhecer, saltavam de seus olhos as gabirobas de asas de pássaros da terra, a primavera incendiava as colméias das sementeiras...